Maratona de Santiago 2015 – Parte II

Oi pessoal!
 
Dando continuidade ao relato sobre a Maratona de Santiago… Não preciso nem dizer que custei a dormir na noite anterior, tamanha a ansiedade antes da prova! Vejam bem, era minha estreia nos 21 km no asfalto e também minha primeira corrida internacional. Já corri muitas provas de rua e inclusive duas meias maratonas na montanha, mas o nervosismo e a cobrança comigo mesma eram muito altas, e eu queria fazer um bom tempo – abaixo de 2h05! Ainda bem que eu tinha uma super roommate, expert em meias maratonas e provas internacionais, que me tranquilizou bastante – obrigada Ci! Nosso hotel estava cheio de brasileiros e corredores, e o café da manhã abriu mais cedo especialmente por conta da corrida. Nos alimentamos bem (por volta das 6h30), já que a largada seria bem mais tarde.
Como o Chile ainda está em horário de verão, o dia amanhece apenas próximo das 8h (isso significa que acordamos e estava um breu!). A largada da Maratona estava marcada para as 8h10, e a Meia Maratona e os 10 km largariam as 8h40. O metrô aos domingos só começa a funcionar a partir das 8h, mas em função da corrida duas linhas começaram a operar às 7h – horário que partimos em direção a prova. Como eu disse no post anterior, estávamos apenas a 5 estações de distância da largada, que foi na Avenida Libertador Bernardo O’Higgins. O metrô estava completamente tomado por corredores, e foi a maior festa nos vagões! Descemos na estação La Moneda, que fica coladinha na Plaza de La Ciudadanía, local da largada. Nessa praça encontra-se o Palácio de La Moneda, uma construção linda que é a sede da Presidência da República do Chile.

Assim como a retirada dos kits, a organização das largadas foi ótima! Dentro da estação já havia informações sobre o lado da avenida que deveríamos descer, conforme as distâncias. Essa avenida é muito larga, e a maratona tomou completamente um dos lados, enquanto no outro lado as largadas dos 10 e 21 km ficaram divididas. De forma semelhante, o acesso ao local de largada era restrito aos respectivos números de peito, tudo organizado e eficiente (imaginem só organizar uma prova com 28 mil corredores sem confusão… Santiago tá de parabéns)! O clima no dia da prova estava extremamente agradável, com um ventinho gelado logo cedo e tempo aberto e um sol lindo a manhã toda – o suficiente para usar apenas um quebra vento antes da largada, e poder correr de saia e camiseta.
                A largada da Maratona foi pontualmente as 8h10, com a presença de aviões da Força Aérea Chilena fazendo “graça” no ar e marcada por um tiro de canhão que emocionou a todos. Nesse momento, meu coração disparou junto com o canhão e não consegui conter as lágrimas pela emoção de estar em outro país, de poder correr uma meia maratona e pela energia da prova. Depois de assistir a largada dos 42 km, nos alongamos e fomos para a nossa largada. Um ponto negativo da largada da meia maratona foi a falta de baias que separavam os corredores conforme o pace – só havia uma, sinalizando o tempo abaixo de 1h30, e quem não entrou nessa teve que percorrer mais de 800 metros até conseguir entrar no funil de largada (lembram-se dos 14 mil corredores? Pois bem… imaginem a distância do pórtico que ficamos).
                A nossa largada também foi pontual, e passei pelo pórtico depois de 11 minutos. Ficou bem difícil conseguir imprimir um ritmo bom nos primeiros quilômetros devido ao grande número de corredores, então fui confortável, curtindo a energia indescritível da prova, gritando junto com as milhares de pessoas o famoso “Chi Chi Chi Le Le Le – Viva Chile!”. Até o km 5 não vi placas de marcação a cada quilômetro, o que atrapalhou um pouco a minha estratégia de prova (já que corri sem Garmin, e dependia das marcações para controlar o pace no relógio). Depois disso, as marcações a cada km estavam bem visíveis!
Concentração antes da prova e a caminho da largada


Largada EntelMDS2015

O primeiro posto de hidratação foi no km 5, e logo percebi que teríamos problemas com isso durante a prova. Além dos poucos pontos de hidratação em um percurso longo como uma meia maratona, os postos foram colocados apenas de um lado da via, em locais pouco estratégicos (rua estreita, próximo de curvas, etc), o que gerou um grande afunilamento e confusão. A água era colocada em copos de papelão a partir de galões de água de 5L, e os corredores se aglomeravam para conseguir pegar um copo e seguir viagem – pasmem, Brasil! Cadê nossa praticidade dos copinhos de água lacrados com alumínio, que conseguimos pegar correndo e tomamos durante o percurso
? Fora que em dois postos de hidratação (km 11 e km 16) a quantidade de atletas que passava pelo posto era muito superior à rapidez com que o staff preenchia os copos de hidratação, o que obrigou as pessoas a pararem e esperarem por água, fazendo com que bons segundos fossem perdidos. Eu tive que tomar meus géis de carbo apenas nos km 11 e 16 (pretendia tomar nos 7 e 14), pela falta de hidratação no percurso, e tive que literalmente parar e andar para conseguir fazê-los sem me afogar com o copo de boca larga. Fora água, havia também Gatorade e um posto com suco de frutas. A falta de educação de alguns corredores também chamou atenção, pois os copos eram jogados de qualquer jeito e no meio da via, que ficava molhada e escorregadia, tornando-se perigoso para corredores em alta velocidade.
                Apesar da falha na hidratação, a prova é uma delícia de correr. O percurso passa por ruas bem arborizadas, por entre os bairros, avenidas largas, pontos turísticos, e tudo isso com uma visão linda da Cordilheira dos Andes ao fundo em parte dos quilômetros. A prova é essencialmente plana, apresentando uma discreta altimetria (subida entre o km 10 e o km 16, praticamente imperceptível, e descida suave a partir do km 18). Bandas e DJs estavam em dois pontos do trajeto animando os participantes – quando eu passei pelo km6, eles tocavam Sweet Child O’Mine, do Guns, e deu vontade de parar de correr pra ficar lá cantando com os caras, que estavam arrasando!
Falhas na hidratação, um dos únicos pontos negativos da prova. Banda animando geral os participantes!
 
Agora, a grande estrela da Maratona de Santiago é realmente o povo chileno! Como o evento é muito importante para o país, a cidade inteira vibra com a corrida! Vemos muitas pessoas assistindo e incentivando os participantes ao longo de todo o trajeto, idosos, famílias e muitas crianças torcendo e estendendo a mão para que os corredores as tocassem. Ouvi inúmeros gritos de “Animo”, “Fuerza”, “Sí, se puede”, “Arriba”, “Viva Chile!” e vi cartazes lindos ao longo de todos os 21 quilômetros (não havia nenhum trecho sem expectadores!). Isso foi o mais emocionante de tudo, receber esse incentivo realmente nos faz ir adiante, acreditar mais em nós mesmos e amar ainda mais esse esporte. Aqui no Brasil não vemos ninguém apoiando os atletas nas provas mais importantes, exceto talvez na São Silvestre… depois de sentir essa energia incrível do povo Chileno, sentirei ainda mais falta disso nas provas longas.
Povo chileno: melhor torcida!!!


Energia emocionante!
   Essa prova infelizmente não contou com corredores de ponta brasileiros, apesar da presença de grandes atletas da elite do atletismo e uma boa premiação em dinheiro (U$S 20 mil). Na meia maratona, os ganhadores foram Roberto Echeverría (01:05:40) e Valentina Carvallo (01:18:25), enquanto na maratona Luka Lobuwan (02:11:52) e Inés Melchor (02:28:18) venceram. Quanto à mim, consegui cumprir até que com  satisfação minha estratégia de prova. Como eu não tinha como controlar meu pace, dividi a prova em três partes e estabeleci em quanto tempo gostaria de fazer cada uma delas (entre 40-42 min cada 7 km, e na última parte ir com o coração). Como fiquei num pace confortável porém ‘forte’, não senti muito cansaço e nem necessidade de diminuir o ritmo, provando a mim mesma que eu realmente estava preparada. O momento mais marcante foi no km19, quando fiz a curva e entrei na avenida principal onde a chegada estaria… tinha muitas crianças gritando e eu passei tocando na mão de todas elas, com lágrimas nos olhos e arrepiada por estar ali, vivendo tudo aquilo! Avistei o pórtico e comecei a dar um sprint, animada quando vi no relógio que eu faria uma sub 2h… porém, não era a chegada (hahahaha, fuén fuén), que estava uns 400m a frente. Apesar disso, cruzei a linha com 02:01:11, dentro da minha meta pessoal (embora eu saiba que daria pra ter forçado um pouco mais)! Não beijei o chão, mas chorei que nem uma manteiga derretida e agradeci por tudo e todos que me levaram àquele momento de plena realização pessoal! Quase explodi de alegria! Pegamos a medalha, frutas e nos hidratamos, e depois disso foi só festa!
 
 
 
Algumas considerações finais e dicas:
– Apesar dos problemas da (falta de) separação por paces na largada e da deficiência na hidratação, a prova merece todos os elogios do mundo! Exemplo de organização, tanto na retirada de kit quanto nas largadas, percurso lindo e plano, animação do povo chileno e energia muito positiva!
– Hidrate-se bem na semana anterior e principalmente na véspera! Minha garganta e nariz secaram MUITO durante o percurso, o que dificultou a respiração. Depois da prova muitos ficaram também com tosse pelo clima e altitude, mas nada preocupante. Leve soro fisiológico pra hidratar o nariz, você vai precisar!
– Carregue um bom cinto de hidratação: géis de carboidrato, balas de goma, sachês de mel, balas de sódio ou amendoim e água, se possível. Agora a maior dica seria carregar também um lipbalm ou manteiga de cacau, já que nossas bocas racharam durante a corrida.
– Tire uma semana para passear em Santiago depois da prova. A cidade é linda e vale a pena conhecer com mais tempo, inclusive locais vizinhos como Valle Nevado, Valparaíso e Viña Del Mar (fiquei morrendo de vontade de ficar por lá).
– Aproveite essa experiência incrível de correr fora do país, num percurso bonito e em uma cidade contagiada pela corrida!
Eu jamais vou esquecer dessa experiência por tudo o que ela representa pra mim: superei meus limites, não senti dor alguma (embora tenha sentido o joelho na véspera, o que me deixou receosa) e percebi que sonhos realmente se realizam! Ficou a enorme vontade de voltar em 2016, e quem sabe correr os 42,195 km! Santiago é uma cidade linda, e a Maratona de Santiago vale cada metro! Agora, estou me preparando para os próximos 21,097 km na Maratona do Rio (julho), e confiante em mim mesma para baixar meu tempo. Espero que vocês tenham gostado desse relato, que é baseado apenas na minha experiência com a prova. Se alguém também correu e quiser nos contar sobre, deixe nos comentários!
Um beijo,


Tha
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